Estava há alguns meses me sentindo como se, finalmente, tivesse encontrado a chave da minha liberdade, no entanto ainda não tinha encontrado a porta. Depois que saí de anos de relacionamentos abusivos, meu objetivo de vida era me fortalecer, entender-me e reconhecer-me enquanto mulher. Resolvi fazer duas coisas: voltar a fazer atividade física, depois de praticamente dez anos anos parada e sedentária, e buscar na natureza a compreensão do que aconteceu comigo e do que eu gostaria para meu futuro. Mergulhei de uma vez em várias modalidades esportivas: handbol, surfe, canoa havaiana, ciclismo, kitsurf e ainda comecei o funcional. Isso me ajudou a diminuir drasticamente o cigarro (fumava três maços por dia). Aliado a isso, comecei a querer virar montanhista, desenvolvendo aprendizagem na prática, com travessias em diversas montanhas do país. Iniciei essa jornada e viajei para vários lugares, como Caparaó, Patrimônio da Penha, Pico dos Marins, Petrópolis e Teresópolis e fiz, em poucos meses, várias trilhas dentro do Estado do Espírito Santo.

Aproveitei minha licença no trabalho para recuperar psicologicamente e, em pouquíssimos meses (pasmem, três meses), conheci muitos lugares e várias pessoas que me acolheram e formei muito rápido o que eu queria para minha vida. Mas ainda faltava algo.
Um dia, estava fazendo trilha em Forno Grande, Castelo, e procurava alguém para me levar ao Pico da Bandeira. Uma pessoa do parque me passou o telefone do Ricardo, que não me levou ao Pico da Bandeira na época, mas me sugeriu uma coisa que mudaria para sempre minha vida.
Ricardo me disse que teria uma corrida na montanha de Castelo e me convidou para participar. Eu não entendo até hoje o porquê de ter aceitado, já que não corria, não tinha nenhum amigo que corria e não entendia nada de prova de corrida. Mas aceitei. Fui com a cabeça de conhecer mais trilhas, já que estava vivendo no mundo de montanha.
Mandei mensagem para a organização da corrida que nada mais era que a famosa "insanity moutain" e eu não tinha a mínima ideia do que estava me metendo. Eles me passaram o telefone de uma pessoa chamada Kainoa, que estava organizando a casa que os atletas ficariam no final de semana do evento. Entrei em contato com ele, paguei a minha parte e fui eu sozinha de carro. Cheguei à noite, não pegava "internet" e não conseguia encontrar a casa.
Percebi no meio de um breu que tinha uma casa com bastante movimento de gente. Resolvi parar para pedir informações e para minha sorte era a casa dos rapazes que são contratados para organizar a prova: os famosos "staffs". Que sorte a minha. Já fui recebida de braços abertos por todos eles, conversamos e rimos muito. Já senti uma energia maravilhosa. Foi nesse momento que conheci a galera dos Guardiões do Mestre Álvaro, mas essa informação eu só fui ter depois. Até então eram os caras que trabalhavam no evento.
Encontrei Kainoa e fomos até a casa, onde já tinham vários atletas hospedados. E mais uma vez tive muita sorte. Dentre eles, vários atletas de elite da corrida de montanha e sabe o que foi mellhor? Eu não tinha ideia disso e não houve nenhuma relação de interesse e aproximação por status. Criou-se um laço de amizade ali, por mim, que tudo que entendi depois, só se fortaleceu.
Todos eles perceberam que eu não entendia absolutamente nada de corrida e me deram vários conselhos que foram fundamentais para eu ir tranquila para a prova. E assim fui. Sem pressão. Não tinha nem tênis especializado. Lembro-me que, de manhã, eu fui colocar água na minha bolsa de hidratação e, acostumada com trekking, fui encher até o talo. Muitos riram e perceberam que realmente eu precisava de ajuda. O movimento matutino me fez perceber que até a alimentação é importante pré prova. Eu observei tudo e ouvi cada conselho dito.
Chegou a hora da corrida e eu achei emocionante a largada. Percebi que muitos ficavam nervosos e ansiosos. Na primeira subida íngrime, muitos atletas começaram a parar de correr ou diminuir o ritmo. Eu continuei correndo, porque estava tranquila e percebi que tinha fôlego (ainda não sabia que era meu ponto forte). Nesse momento eu pensei: acho que dá para fazer "na moral essa prova". Comecei a realmente levar a sério e corri na intenção de competir. No km 10 eu já estava me sentindo bem cansada, uma descida interminável e meus dedos, que não estavam acostumados, começaram a doer. Quando estava quase chegando (já ouvia a arena de longe), resolvi apertar mais ainda o ritmo, aproveitando a descida longa. Ao chegar, dei-me conta da aventura que me desafiei, do nada. Recebi a medalha, fui abraçada pelos meus novos amigos (que eu tinha acabado de conhecer, em menos de 24 horas) e gritaram: você ficou em 4º lugar geral. E eu perguntei imediatamente, com o sorriso no rosto: o que é geral? Juro, não sabia nada disso. Todos riram e me explicaram.
Foi a partir desssa explicação que me falaram: investe nesse esporte. Você acabou de achar um novo vício na sua vida. Troquei a partir desse dia praticamente tudo que eu me dedicava (em relação a esporte) e acatei o conselho.
Ali se iniciava uma nova etapa da minha vida. Um novo amor. Um novo vício.

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